Debate sobre o livro na Biblioteca Nacional

Como uma editora traça sua linha editorial? Qual o papel de uma editora custeada pelo governo? O livro impresso vai acabar? Questões como essas permearam o primeiro encontro do Livre-se! Simpósio do Livro da UFRJ, no auditório Machado de Assis, na Biblioteca Nacional, no dia 27 de outubro. Estiveram reunidos para discutir A História do Livro Anibal Mendonça (UFF), Jaime Mendes (Zahar), Marcelo Martinez (UniverCidade), Márcio Gonçalves (UFRJ) e o coordenador do curso de Produção Editorial da UFRJ e mediador da mesa, Paulo Cesar Castro.

Ao ser questionado pela importância social de uma editora custeada pelo governo, Anibal Bragança ressaltou que o papel de uma editora universitária é divulgar a produção científica e obras úteis para o desenvolvimento dos cursos. Elas ocupam um espaço importante na sociedade, porque publicam livros que não são de interesse mercadológico, mas do público universitário, complementou Paulo de Castro.

O segundo dia do evento foi marcado pela emoção ao abordar as implicações do livro na formação do indivíduo e teve como mediador o professor Márcio D’Amaral (UFRJ), que soube conduzir a mesa com sensibilidade. Integrantes do Programa de Alfabetização, Documentação e Informação da UERJ, pessoas da terceira idade, tiveram destaque ao apresentarem seu depoimento e sua experiência com o primeiro contato com a leitura. Alessandro Câmara, membro da Coordenação de Educação Especial do Município de Niterói, também expôs as dificuldades de acesso de um leitor deficiente visual aos suportes de leitura disponíveis no mercado, tomando como exemplo sua própria experiência.

O professor e escritor Mário Feijó (UFRJ) deu o tom certo na discussão sobre a política de acesso à leitura, ao comparar o Brasil com outros países mais desenvolvidos culturalmente: “Os governos que investem em bibliotecas públicas totalmente equipadas têm um nível mais alto de leitores e consumidores de livros.”

O último dia do evento, 29 de outubro, não coincidentemente, foi também o 199º aniversário da Biblioteca Nacional e Dia do Livro. André Garcia (Estante Virtual), Eduardo Mello (Editora Plus), Marco Giroto (Audiolivro), Galeano Amorim (Observatório do Livro e da Leitura) foram os convidados para discutir as formas de acesso ao livro e à literatura pelas novas mídias e formas alternativas, tendo o auxílio luxuoso do professor Paulo Pires (UFRJ) como mediador.

Galeno Amorim apresentou alguns dados sobre o resultado da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, os mesmos já publicados e conhecidos por todos. Marco Giroto causou frenesi na plateia ao prever o fim do livro impresso em papel ao final de quinze anos.  Não faltaram críticas contra a sua profecia, fazendo com que ele se desculpasse por mais de uma vez, dizendo que não fez tal afirmação. Discussões à parte, foi consenso que as editoras podem “não perder” se souberem se inserir no mercado “complicado”.

O evento teve seu encerramento à tarde, no café literário, com a presença marcante do poeta Ferreira Gullar, que, mais uma vez, deixou todos hipnotizados e impressionados com sua rica experiência de vida. Parabéns aos alunos de Produção Editorial (UFRJ) que organizaram o encontro, que atingiu seu objetivo promovendo o diálogo entre profissionais da literatura e do meio editorial, deixando água na boca para futuras discussões.

Curso de Produção Editorial pode virar curso técnico

O MEC apresentou um plano de alteração de diversos cursos de nível superior, incluindo os de Comunicação Social. No geral, a proposta acaba com os bacharelados em comunicação social e desvincula os cursos de uma área comum. Isso dividiria alguns cursos – como no caso do curso de “Audiovisual e Novas Mídias”, que passaria a ser “Rádio, TV e Internet” ou “Cinema e Audiovisual” – e acaba com outras carreiras – como o curso de “Comunicação Científica”, que vira “Jornalismo”. Além disso, outros cursos seriam extintos, como no caso da habilitação em Editoração, que de acordo com a proposta do MEC viraria um “Curso Superior de Tecnologia em Produção Multimídia”.

Todas as mudanças podem ser conferidas aqui.

Alguns alunos de Editoração da ECA estão discutindo a alteração, já que na prática o curso passaria a ser simplesmente técnico (o que pode forçar uma desvalorização da carreira).

O MEC abriu um portal de consulta pública sobre as alterações, que pode ser acessado aqui.

Se você é contra a mudança proposta pelo MEC que altera os cursos de comunicação social e transformam o curso de Editoração em Curso Superior Técnico, junte-se na campanha para barrar a medida!

Comece assinando a petição online abaixo:

http://www.petitiononline.com/mecedit/petition.html

By Blog do CALC

Edição de literatura na Bravo!

Reportagem da Bravo! sobre edição de texto, muito interessante, tendo gancho o lançamento de Raymond Carver pela Cia das letras.

Heloisa Buarque lança antologia digital ENTER

A crítica literária Heloisa Buarque de Holanda acaba de completar 70 anos e diz que uma compensação da idade é a prerrogativa de não perder mais tempo com o que a entedia. Sempre associada à poesia marginal dos anos 1970, hoje mais dedicada às escritas da periferia e à relação da palavra com a web, ela se diz “de saco cheio” de discutir o que é ou não é literatura. Por isso define como uma amostra das “práticas literárias” contemporâneas a antologia digital ENTER, que lança oficialmente hoje no endereço www.enterantologiadigital.com.br O espaço reúne textos, áudios, fotos e vídeos de 37 autores como Nega Gizza, Marcelino Freire, João Paulo Cuenca, Andre Dahmer, Cecilia Giannetti, Lirinha e Bruna Beber.

No post abaixo, um depoimento de Heloisa sobre literatura e Internet, que fará parte de sua biografia, a ser lançada pela Língua Geral.

Depoimento de Heloisa Buarque de Hollanda ao poeta e jornalista Ramon Mello, parte de uma série de entrevistas para a biografia da crítica, que acaba de completar 70 anos. Idealizado pelo editor Eduardo Coelho, o livro será lançado pela Língua Geral. Leia no post acima trecho da reportagem de Miguel Conde sobre Heloisa e o lançamento da antologia digital ENTER.

Como me interessei pela internet? Através de uma amiga chamada Yone Chastinet, que era bibliotecária, mas migrou para a Ciência da Computação. Ela é muito porra louca e muito brilhante. Não há obstáculo para Yone, por isso é demitida de todos os lugares.

Essa mulher inventou o programa Prossiga para o CNPq, com a intenção de facilitar a consulta numa biblioteca virtual por meio de um filtro e de um “localizador”. Numa era pré-Google, quando não existia browser. Então Yone fez o piloto comigo, na área de Estudos Culturais do PACC [Programa Avançado de Cultura Contemporânea], que ainda era um espaço sem prestígio, sem fronteiras. Quando surgiram ferramentas de busca o projeto ficou obsoleto, mas foram essas bibliotecas virtuais que me jogaram na área de mídias digitais. E logo em seguida encontrei a Literatura Digital.

Lembro que a UNESCO me encomendou um trabalho sobre o papel das minorias na web. Comecei pesquisando as mulheres, que é meu objeto de estudos há alguns anos, mas essa busca sempre acabava em poesia, poesia, poesia, poesia… Eu escrevia “poesia brasileira” no site de busca e a cada dia era impossível segurar aquela estatística. A novidade da linguagem, palavra que vai para qualquer lugar, atraiu o meu interesse para o universo digital. É a pergunta que repito sempre: o que é literatura?

Há um debate enorme na rede: são novas formas de escrever. Nunca se escreveu e leu tanto como na internet. Política de incentivo à leitura? O negócio é sacar que ler é uma viagem e a qualidade da leitura chega logo depois. No Japão há uma expressão incrível: bookaholic – a garotada está viciada em livro de internet, compra e lê sem parar. Estamos apenas no começo, os blogs só tem dez anos no Brasil. Existe literatura de internet? Não! É uma convivência que gera uma diferença de comportamento. Antes o poeta colocava o poema na gaveta e agora o texto vai ao público, sendo testado a todo instante. Esse imediatismo da produção modifica o saber, sem dúvida. Quem está conectado à web tem um processo de atenção diferente, dizem que leva à superficialidade. Acredito que passamos da metáfora para a metonímia. Há uma compreensão mais horizontal, uma articulação que aparece diretamente nos textos. Alguém mais jovem deveria estudar esse assunto. O que é o valor literário? Como foi construída essa noção de valor? No ambiente WWW essa questão é levantada o tempo inteiro. O que tem valor na internet? Se eu fosse dessa geração, não ia querer publicar livros, faria um softbook – o texto pode ser alterado a qualquer momento. Quando entrei na internet eu já tinha uma enorme formação de papel, mas não me assustei, acompanhei o crescimento tecnológico.

Em seguida, passei a me interessar pela periferia. Quando conheci o Júnior do Afro Reagge, era na mesma época do massacre de Vigário Geral – o que fez com que vários intelectuais se reunissem em torno do Júnior, inclusive o Zuenir [Ventura] escreveu Cidade Partida. O Wally [Salomão], meus amigos todos, estavam se aproximando da periferia. Sempre existiu cultura de periferia, mas não havia a oportunidade de ter voz. Estamos bem representados com o Nós do Morro, Cufa, Cia. Étnica, Enraizados… É uma força impressionante! Há grandes diferenças entre a periferia do Rio de Janeiro e da São Paulo. Por exemplo: em São Paulo a propriedade é marcada, cada um toma conta do seu CEP. No DVD 100% Favela, o Ferréz diz: “Quem vai contar minha miséria sou eu, intelectual nenhum vai contar minha história.” No Rio é diferente, o MV Bill está no Fantástico. Na literatura produzida na periferia ainda há o engajamento, mas muito diferente do engajamento de “mudar o mundo”. Hoje há o auto-investimento, é seu CEP que você quer mudar e não o mundo, nem o Brasil. O raio de ação é muito pequeno, então é mais eficaz. Na geração anterior as pessoas eram reativas, agora as pessoas agem e não esperam a revolução. Mais do que a internet, a periferia é grande novidade do século XXI.

http://www.oinstituto.org.br/enter/

E por falar em tipografia…

Muitas vezes confunde-se o convencional com o pouco criativo. Regras não existem à toa; obedecer um certo rigor tipográfico garante quase sempre um resultado melhor, para o olho experimentado, do que o nascido por inclinações intutivas. Claro que a contravenção é salutar, mas a parcimônia, a beleza a partir da compreensão das regras, é bastante bem vinda.

Meu autor favorito é Jan Tshichold. Ele é a razão pela qual eu penso diariamente em usar gravata borboleta e sair descobrindo cânones secretos por aí.

Jan-TschicholdTschichold é uma grande inspiração de nome impronunciável; há quem o chame de “tchicold”, no sotaque suíço, e quem, como eu, arrisque “tschic’old”, em alemão de Berlim. Seu The Form of the Book: Essays on the Morality of Good Design é meu livro de fé. Meu ensaio favorito, “Correlação coerente entre Páginas de Livro e Mancha Tipográfica”, já foi lido e relido tantas vezes que a lombada está por ceder entre as páginas 61 e 90 do livro.

O que Tschichold diz é simples: estude, observe, repita e aprenda. A fórmula persiste, sim, e ecoa há séculos no estudo da tipografia. Lê-se que a harmonia só é apreensível a partir de uma relação matematicamente coerente entre todos os elementos de uma página (seu formato, inclusive). Experimente colocar seu gênio de lado, aplique isso, e pronto, o resultado terá uma beleza rigorosa, impecável, e extremamente fluida. Quase infinita.

É claro que quase ninguém se importa a fundo com isso. Penso no entusiasmo solitário de Tschichold ao classifcar o Diagrama de Villard como “verdadeiramente emocionante”. A obsessão pela harmonia, encontrada em uma relação geométrica, facilmente reproduzível… quem ama tanto tipografia a ponto de se alterar com isso?

Parece que não emocionou nem os designers desse livro. Para um texto tão bom quanto esse, nada me revolta tanto quanto um projeto gráfico mal-cuidado. Quem o fez seria capaz de roubar uma ovelha: não alinhou as páginas de abertura de capítulo ao grid, nem ao menos calculou o kerning. E está no colofão, “Este livro foi composto em Sabon (…) em acordo com os princípios pregados por Jan Tschichold”. Por questões de elegância, não vou citar o nome da editora, e nem dos criminosos que assinam o projeto gráfico em questão. As pessoas acham que capa dura e papel pólen fazem com que certos erros passem despercebidos. Imperdoável.

Bem, sofro de tipofilia, e preciso me controlar, pois conheço meu eleitorado, e sei que a conversa é muito “insider” pra quem entra aqui só pra se inteirar sobre produção editorial em geral. Mas, a verdade é que estou tão absorvida pelo tema, que mal tenho tempo para me concentrar em outras coisas.

No mais, abraços aos que ficam, que vou reler, só mais uma vez, o “Correlação coerente entre Páginas de Livro e Mancha Tipográfica”. Até mais!

dica: tipografia Cosac Naify

Esta é mais para quem está começando a formar a sua biblioteca de design editorial: ter os livros de Robert Bringhust, Timothy Samara e Ellen Lupton são indispensáveis.

Na loja virtual no site  da editora Cosac Naify há kits com esses e outros livros com descontos de 30%. Vale a pena dar uma olhada também no outlet com 50% de abatimento.

Ter ou não ser?

Senhor, se quiser gastar comigo palavra por palavra, o deixarei falido.
William Shakespeare em Dois cavalheiros de Verona
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A Nova Aguilar está prestes a finalizar as edições da obra completa de Shakespeare. A Agir, numa outra edição caprichada em formato de caderno publicou recentemente a obra do mestre do teatro inglês. Essa coletânea em três volumes da Nova Aguilar tem um bom apêndice, a tradução de Bárbara Heliodora. Os dois volumes já lançados podem ser comprados no mercado por R$ 350,00.

A editora ainda reuniu obras de grande mestres da literatura mundial. Experimente adiquirir a obra reunida de Machado de Assis, em quatro volumes que sai por R$ 650,00. Essas você não põe na estante, deixa ali logo na mesinha de centro. Obra completa de José Lins do Rego, R$ 410,00. Se quiseres mais erudição, quatro volumes de Dostoiévski por R$ 600,00, ou a ficção completa de Guimarães Rosa em dois volumes por R$ 390,00. Leon Tolstoi organizado em três volumes a R$ 500,00. Ter Camões sai mais em conta, R$ 170,00 e o deleite do portuga está garantido para muitos além mar.

Abrace Olavo Bilac em R$ 210,00. Edgar Allan Poe a R$ 190,00. O grande Lima Barreto está inteirinho a R$ 290,00. Obra completa do bahiano Castro Alves a R$ 180,00. O brilhante asqueroso Augusto dos Anjos R$ 130,00. Poesia completa de Mário Quintana está a mãos por R$ 230,00.  A poesia e prosa de Charles Baudelaire está a R$ 220,00; quase o mesmo que ter Ferreira Gullar e seus versos a R$ 230,00. Podes ter mil encontros marcados com Fernando Sabino em dois volumes de R$ 400,00. Entre muitos outros, e tantos esgotados como o de Vinícius de Moraes.

A Nova Aguilar investe no que preconceituosamente chamamos de alta cultura, ter um desses é uma declaração de amor ao autor, visto o tempo que será despendido, visto as economias nem sempre muito abundantes. Sem comentar que reunir obras completas é um trabalho de cão, a revisão, adequação, armar um projeto gráfico para pequenas bíblias tipográficas. O custo de produção é inestimável, e igualmente é  o apreço de ver algo dessa magnitude.

Da série “Trocadalho do carilho”

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Visto aqui.

Um prêmio dedicado aos profissionais do livro

Imaginem se um dia, você subisse ao palco para receber um prêmio pela execução de um filme daquela revisão que te privou de horas de sono e garantiu muitas dores nas costas, mas que no final te deu o maior orgulho. Oscar de Produção Editorial? Exatamente.

Em Portugal, Os Prêmios Edição LER | Booktailors premiam os melhores profissionais da área da edição de livros. Os prêmios principais (e que contam com os votos do público, além de um júri especialista) são dedicados aos criadores de: Melhor capa de Literatura, Não-ficção, Infanto-juvenil,  Arte,  Gastronomia; Melhor Projeto Gráfico (nas mesmas subdivisões); melhor fotografia original; melhor ilustração original; e (saindo um pouco do campo da edição) Melhor livraria independente, entre outros. Ainda existem os Prêmios Especiais do Júri que galardeam os profissionais de Edição, Revisão, Tradução, Livreiro e blogosfera de edição, entre outras categorias.

Os vencedores da edição de 2009 foram anunciados em maio, e podem ser conferidos aqui. Vejam as capas, e digam se pensam como eu, que acho sorte deles que não é permitido a candidatura de capistas brasileiros ao prêmio.

Curiosidade: se essa premiação ocorresse aqui no Rio, alguém consegue imaginar candidatos aos prêmios de “Melhor livraria independente” e “Melhor Livreiro”?

(Juro que tentarei não falar de Portugal no próximo post. =P)