Ebook e a expectativa do mercado brasileiro

O lançamento do Kindle (ebook da livraria virtual Amazon) gerou muita ansiedade no mercado editorial. O novo produto superou seu precursor Reader Digital Book– da Sony – em versatilidade e se tornou uma febre no mercado americano. Em três meses a livraria vendeu todo o estoque projetado para um ano.

O preço inicial do Kindle foi de US$ 399,00. Um preço pequeno para lançamento. A tendência é que diminua bastante nos próximos anos. Após nove meses, o aparelho está sendo vendido por US$ 359,00 e a Amazon divulgou que o formato digital já é responsável por mais de 14% de sua venda de livros. Será apenas uma febre inicial ou pode-se pensar numa tendência? O fato reacendeu o debate que se desenvolve há pelo menos uma década: será que chegamos ao fim do livro impresso?

Os mais céticos duvidam e relembram a sobrevivência do teatro ao cinema; do cinema ao rádio; do rádio à televisão; da televisão aberta à cabo; e da tv a cabo à internet. Do outro lado, os pessimistas citam o fim do VHS, do vinil e do CD em tom apocalíptico.

Independente da questão, o novo suporte tem gerado grande agitação nas editoras brasileiras. A Elsevier (cujo braço no país é a antiga editora Campus) anunciou um curso para seus terceirizados que já sofreu dois adiamentos. A meta da editora é que até 2009 todos seus livros sejam produzidos nos dois formatos (digital e impresso) em todas filias espalhadas pelo globo. A Jorge Zahar pretende lançar uma coleção piloto em formato digital e impresso ainda no ano de 2008. A Ediouro também pretende abocanhar parte do novo filão.

O maior problema técnico das editoras é o formato digital a ser utilizado. A tendência mundial tem sido o XML, uma linguagem genérica que atualmente é recomendada pelo W3C. O Kindle já lê esse formato e para o Reader Digital Book, a Sony disponibilizou uma atualização que o habilita a reconhecer o XML.

Tecnicamente, nem o Kindle nem o Rider tem qualidade gráfica que se equipare ao papel impresso. Certamente não será nenhum deles a terminar com o livro em papel, apesar do inegável impacto que causaram no mercado. Entretanto, este é apenas o começo. A Philips anunciou seu papel virtual, mas dinâmico, versátil e de melhor resolução que os ebooks.

Historicamente as inovações de suporte do livro colocaram fim aos suportes anteriores. O pergaminho terminou definitivamente com o papiro no século III dc. E no século XIV, a descoberta do papel chinês pelo ocidente enterrou o pergaminho para sempre. Desde então o livro não presenciou nenhuma revolução em seu suporte (embora o processo de produção do papel tenha sofrido algumas inovações). Se acontecer agora, estaremos testemunhando um momento raro da História.

Bruno Cruz

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9 Respostas

  1. Comentários breves: o e-book, acredito, está mais para cinema/teatro que para DVD/VHS. São situações semelhantes, mas possuem diferenças fundamentais.

    O cinema não é uma evolução do teatro, apenas uma proposta próxima. O DVD é exatamente um VHS aperfeiçoado.

    Não acho que o e-book vá vingar como alternativa ao livro impresso, mas como complemento. Conforme discutido em sala, seria ótimo um guia de filmes onde pudessem ser vistos trechos no e-book (melhor que apenas fotografias impressas), ou como enciclopédia portátil (não é nada prático carregar a Barsa dentro do ônibus, não?).

    No mais, alguém aguentaria “Guerra e Paz” na tela de um aparelho?. Além desta questão, existe o descompasso de tudo que necessita um sistema operacional (nunca precisei do Ctrl+Alt+Del num livro), segurança (quem leria tranqüilamente um e-book na praia?) e outros problemas.

    Por fim, de acordo com a idéia do professor Mario Feijó, deixemos cair no chão todas as obras de Freud impressas e o Kindle com todas as obras de Freud armazenadas: quem passará para o posterioridade?

  2. Em primeiro lugar gostaria de manifestar minha alegria de ver que o Bruno fez seu primeiro post. O Mário também já colaborou e devemos reconhecer esse esforço.

    Sobre os e-books, conversei com ninguém menos do que Muniz Sodré, atualmente presidente da Biblioteca Nacional. Ele se mostrou interessado na questão e disse que existia uma equipe na BN passando o acervo da biblioteca para o suporte digital. Mas quanto perguntado se acreditava que isso poderia significar o fim do livro, ele foi categórico: não. Por quê? Além do constraste do papel de que o Bruno falou, talvez a principal preocupação seja justamente com a durabilidade. Um arquivo digital tem uma vida útil bastante curta em relação ao livro impresso e ninguém sabe quando pode ser corrompido. Na sua opinião(acho que na nossa também) ainda não inventaram uma tecnologia mais eficaz nem tão simples (=genial) como a do livro impresso.

  3. Humm… mais uma coisa. Alguém conhece o Librivox? É uma espécie de Gutenberg Project (aquele que disponibiliza os e-books dos textos que cairam em domínio público) só que em vez de e-books são audiobooks, uma tendência em alguns países de Europa. Paulo Pires bem que podia falar um pouco sobre eles já que acompanha de perto as tendências e novidades nesse mercado aqui e lá fora. Na verdade audiobooks não é exatamente uma novidade, mas curiosamente ainda não pegou no Brasil. O Librivox é totalmente gratuito, todos os textos são lidos por voluntários e até hoje não possui nenhum texto em Português. Alguém se candidata?

    Humm 2… Que tal montar um podcast?… Deixo essa no ar

  4. Teve uma época em que o audiobook também era uma coquelouche e todo mundo achava que ia ser O futuro.
    Mas pegou bem menos do que o esperado “lá fora”. Acho que a única exceção foi a Alemanha, senão me engano.

  5. Acho que não faltará espaço pra ninguém. Todas essas formas de mídia só contribuem para alimentar ainda mais os hábitos de leitura. Isso sim, não pode deixar de existir. Que venham os e-books! O livro impresso continuará sendo um fetiche para os amantes do livro.

  6. A questão não é o suporte, as editoras já oferecem os livros em meio digital que o usuário pode ler na tela do computador, num e-book ou imprimir a parte que lhe interessa e ler em papel.
    A maior incerteza, que não se restringe ao meio editorial, se refere aos direitos do autor. Hoje qualquer um pode baixar um livro (ou uma música, um software…) pelo Torrente ou outro software qualquer de p2p. Como fica então os diretos de autor, custos de produção, etc… quem vai pagar os salarios dos formandos em PE se ninguem mais pagar pelo conteúdo digital?
    O que está em jogo no gadget da Amazon é uma forma de impedir (ou pelo menos dificultar) o usuário “compartilhar” o conteúdo com os amigos.

  7. Queridos Evsukoff, Vania, Renato e Tiago.

    Tem uma contradição na pergunta do Evsukoff. Se o formato digital não substituir o livro impresso, a questão dos direitos autorais não é preocupante. Continuaremos vivendo com a venda do livro impresso. Se isso virar um problema, é porque de algum modo um substituiu o outro.

    Tem uma falácia no argumento do teatro e do cinema. Não é verdade (ao menos em termos de mercado) que um não substituiu o outro. O teatro conheceu uma queda vertiginosa de público iniciada na segunda década do sec XX. O golpe fulminate no teatro foi a decada de 1950: a televisão. A platéia de hoje é uma parcela praticamente desprezível, se comparado ao Teatro dos anos 1920 a 1950. Muito embora ainda exista a Broadway. Fora a Broadway, teatro não existe (claro que podemos citar grandes obras mas comparado com o que era antes de 1950…)

    O mesmo acontece com o cinema. Na década de 1950, cinema era um acontecimento. Para se ter idéia, Agulha no palheiro (filme nacional que foi considerado um fiasco de público) teve um milhão de espectadores (cifra que hoje é sinônimo de mega sucesso no mercado nacional). Depois do advento do DVD, as bilheterias caíram tanto que a maior parte dos filmes americanos precisa da receita de venda do DVD para se pagar. Mas sim, cinema ainda existe. É um mercado viável. Não diria o mesmo do teatro embora ainda haja um aspecto do teatro que sobreviveu.

    O radio se reinventou. Virou outra coisa. E sim, ainda há rádio. Não o rádio dos anos 1940. Hoje existe um outro tipo de radio. Mas existe muito bem obrigado.

    Sim. Ainda existirá livro durante muito tempo. Mas se (veja bem: SE) o papel virtual vingar e conseguirmos produzir uma resolução superior a 300 dpi numa mídia de reflexão de luz e não de emissão, se isso for possível, o mercado editorial tal qual o conhecemos estará com os dias contados. E aí a preocupação de Evsukoff será procedente. Até lá, durmo tranqüilo.

    (Tiago, apesar da positiva afirmação do Sodré, a produção analógica ainda é mais insegura que a digital. As obras presentes na BN e a informação lá armazenada estão mais expostas a um incêndio e consequente perda do que se estivessem na rede…) A maior parte da filmografia brasileira que se perdeu, estaria imortalizada se houvesse youtube na época.)

  8. Bruno,

    concordo com as mudanças que sofreram o rádio, o teatro e o cinema com o advento em especial da televisão. Contudo, vejo com ressalva esta maior segurança da produção digital em relação à analógica.

    Da mesma forma que um desastre pode colocar fogo na Biblioteca Nacional, um incêndio pode transformar os servidores do Google em pó (guardadas as devidas proporções que pouco tem a ver com a forma como é armazenada a informação).

    O que garante esta aparente durabilidade do digital, acredito, não se trata do armazenamento, mas da reprodução e distribuição. O acervo audiovisual se perdeu porque apenas as emissoras/estúdios detinham-no.

    Dessa forma, ainda que todas as bibliotecas fossem incendiadas, não se perderiam as Bíblias e os livros de Harry Potter, por exemplo.

  9. Artur Azevedo é o patrono do único teatro público de C. Grande. Em 22/10/08, se completará a passagem de um século de sua morte. Embora não seja um escritor ou teatrólogo (digamos, de teatro sério), foi personagem que viveu o Império e a República; a escravidão e aliberdade; Em crise, o teatro, montou, em 3 meses, 15 peças; lutou por 30 anos p/ a construção do T. Municipal, etc. Acredito que se deveria comentar esses atributos e circunstâncias, tão fora de cogitação nos dia de hoje.

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