Divagação

Enquanto Stendhal escrevia o primeiro parágrafo de “A cartuxa de Parma”, é inegável que contribuía para a literatura francesa e mundial. Estaria, ainda assim, Stendhal prestando um desserviço à formação de leitores um século após a sua morte?
A pilhéria com este clássico deve-se ao primeiro parágrafo ter inspirado a criação do lead jornalístico, que chega aos jornais brasileiros na década de 1950 pondo fim ao jornalismo romântico nos anos subsequentes. Responder no primeiro parágrados às perguntas “O que? Quem? Quando? Onde ? Como? Por que?” era o início da formatação dos textos para jornais.

Assim surgiram manuais de redação e estilo prezando pela clareza, concisão e simplicidade. Talvez tenham sido levados a sério demais. Qual não é o desespero de um estudante ao escrever uma notícia nos padrões pela primeira vez. Escrever para a televisão é quase voltar aos primórdios da comunicação.

Hipérboles à parte, a questão é: o quanto esta simplicidade em excesso vicia um leitor? O analfabeto funcional é capaz de compreender frases curtas, simples e diretas, muito semelhantes às ensinadas em diversos manuais. Os jornais apenas subestimam seus leitores ou realmente nivelam por baixo para alcançar um maior público? Há algum nexo nestas questões ou são puro devaneios?

Estaria de fato o jornalismo contribuindo para o analfabetismo funcional? Uma questão muito complexa, uma futura monografia quem sabe?

Foto de leoberaldo

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7 Respostas

  1. Com certeza é uma questão complexa, Renato.
    A mudança no estilo literário a partir do advento da imprensa de massa não é um fato isolado, pois o jornalismo também sofreu suas mudanças. Nessa época o jornalismo não era uma profissão regulamentada e servia para complementar a renda. O fato é que não são raros os escritores que “prostituiam” sua arte, como se costuma dizer, em periódicos. No Brasil tivemos Euclides da Cunha, lá fora Hemingway é também um excelente exemplo do texto objetivo , conciso e direto, mas sem com isso perder seu estatuto de arte. A discussão é antiga e não quero me alongar. As transformações ocorreram tanto no jornalismo quanto na literatura. E no caminho inverso dos escritores dos séculos XIX, alguns jornalistas do século XX se lançaram na tarefa de tornar suas reportagens obras literárias. Talvez o trabalho mais conhecido do New Journalism (ou novelas de não-ficção) foi A Sangue Frio de Truman Capote, no entanto existem outros jornalistas que, ao seu modo, confundiram os limites entre a reportagem e o romance: Gay Talese, Lilian Ross, Norman Mailer, Rodolfo Walsh. Este último, argentino, apesar de não ter seu mérito devidamente reconhecido, foi o primeiro a publicar uma novela de não-ficção: Operación Massacre, leitura obrigatória em todos os cursos de Jornalismo e Literatura da Argentina.
    A outra questão… vou me limitar a só a primeira e já tá bom…
    Sobre o tema vocês podem encontrar na Companhia das Letras o livro Pena de Aluguel da jornalista Cristiane Costa. Em 1904, o jornalista e escritor João do Rio pergunta a vários autores se o jornalismo é bom ou mal para a arte literária. Cristiane refaz as mesmas perguntas um século depois. Confira outras informações no site http://www.penadealuguel.com.br.
    Até a próxima!

  2. Thiago, você tocou num ponto interessante ao qual não havia dado tanta atenção: a relação entre profissionais do jornal e das letras (que tantas vezes se confunde).

    Ainda assim fico a pensar até que ponto a relação leitor/jornal pode afetar a leitor/livro. Não ignoro que haja uma série de outras questões envolvidas (rádio, TV popular etc.), mas estas duas, pela proximidade e distância tão significativas, são as que mais me chamam a atenção.

  3. “Os jornais apenas subestimam seus leitores ou realmente nivelam por baixo para alcançar um maior público? Há algum nexo nestas questões ou são puro devaneios?”

    É uma questão de economia. Textos enxutos falam mais num mesmo espaço se você não gasta linhas descrevendo quão fria era a brisa na manhã em que a polícia prendeu o meliante. O espaço que sobra serve para (nos dias atuais) abrir espaço para a fotografia (o que dá leveza à mancha gráfica) e para a publicidade.

    Além disso, os jornais de hoje concorrem com a TV e a internet. O fluxo constante de informação leva à apreensão rápida do que aconteceu. Tanto é o perfil dos jornais de domingo – somente notícias frias, análises, matérias especiais. Quase nada do dia-a-dia.

    Não há nada em viciar o leitor, seja ele de que classe social for. Aliás, quanto mais dirigido ao público A, mais conciso e enxuto são os textos dos jornais.
    Abs

    Suzana

  4. Acho que o texto jornalístico vicia os leitores sim, assim como vicia os próprios jornalistas… Mas também seria relevante pensar se é função do jornal formar leitores, bons leitores digamos assim…O jornal transmite o que se configura como notícia, deve ser direto e frio… As alternativas que o thiago apontou são belas exceções que rompem com esse vício do texto. O Talese, por exemplo, descreve uma simples construção de uma ponte com uma riqueza de detalhes e personagens genias, gerando uma narrativa esplêndida… Gosto desse tipo de jornalismo, o literário… é meu gosto pessoal… Mas imagina se todos os jornais fosse assim? O meia-hora?
    Não dá, até isto requer uma sensibilidade única que a maioria dos jornalistas não têm ou não aprendeu, afinal são jornalistas não escritores…

  5. De modo algum seria bom um jornal que desse voltas e mais voltas para dar uma notícia. De verdade mesmo, eu nem gosto de textos descritivos em livros (leio, mas acho um porre na maioria das vezes).

    A questão que eu penso é: não é tudo mastigado demais para o leitor? Será que é tão fatal assim uma inversão entre sujeito e predicado?

    Não é o texto num todo que me aflige (deve ser até o melhor mesmo), mas estes pequenos detalhes condenados pela maioria dos professores de redação jornalística…

  6. Nem vou tão longe Renato. Não é preciso inverter o sujeito e predicado para que as pessoas não compreendam o que leem e ouvem. Não recordo os datos exatos (vou confirmar a informação), mas há coisa de uns poucos anos foi feita uma pesquisa que queria descobrir se as pessoas entendiam o que Sir Bonner e sua fiel escudeira Bernardes diziam. Resultado: uma porcentagem assustadora (mais de 50% se não me falha a memória) não sabia o significado de muitas palavras por eles pronunciadas. Não preciso lembrar que os telejornais economizam no vernáculo para justamente atingir um público amplo. O problema do analfabetismo funcional é, já está mais do que comprovado, um problema gravíssimo quer para o desenvolvimento do país, quer para o crescimento do mercado editorial. E digo isso porque uma coisa está relacionada à outra, afinal, já dizia Lobato: “Um país se faz com homens e livros”. Está claro que um ano de alfabetização não forma leitores; a leitura forma os leitores e é ela que deve ser estimulada nos mais novos.
    Concordo com a Tainée, os jornalistas não são responsáveis pela formação de leitores, o que não quer dizer que não a corroborem, mas depende de como ele é usado. Há várias escolas que adotam os jornais como forma de incentivo à leitura, é um uso pegagógico, e há cidadãos que utilizam o jornal para as necessidades fisiológicas de seu cachorro.
    Os usos que lhe atribuimos podem variar muito, mas o compromisso do jornalista é sem dúvida com a qualidade da informação. Talvez seja pertinente perguntar qual é o papel dos editores e das pessoas que trabalham nas editoras.

  7. O eterno dilema: não é fresquinho porque vende menos ou vende menos porque não é fresquinho?

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