De lépidas raposas e cães preguiçosos

Ai, palavras, ai palavras, / que estranha potência, a vossa!¹ E que potencial estranhamento causam algumas delas. Em latim, inglês ou na língua materna, numerosas são as frases de origem desconhecida (pela maioria dos seus usuários) que atingiram seu auge no uso regular com a difusão dos computadores pessoais.

O bom e velho Lorem ipsum (dolor sit amet…) não é o único exemplo destas sentenças tão cotidianas quanto misteriosas. Poucos são os que não se surpreenderam com uma vasta seqüência de “A ligeira raposa marrom ataca o cão preguiçoso” ao digitar uns caracteres e apertar enter no Microsoft Word.

A citada frase, no entanto, nada mais é que uma boa tradução do pangrama inglês “The quick brown fox jumps over de lazy dog”. Do grego (pantós – todo e grámma – letras), pangrama é um texto que faz sentido utilizando todas as letras de um alfabeto, tanto melhor quanto menos repetições possuir. Fica clara, então, a utilidade deste tipo de frase: inspecionar todas as letras de uma determinada fonte para garantir que nenhuma esteja corrompida.

“A ligeira raposa marrom ataca o cão preguiçoso”, no entanto, não possui todas as letras e acentos do português. Verdade, trata-se apenas de uma boa tradução feita por alguém que não se deu conta da utilidade da frase no programa original.

Para a Língua Portuguesa funcionaria muito bem a “Hoje à noite, sem luz, decidi xeretar a quinta gaveta de vovô: achei lingüiça, pão e fubá”, atribuída a Tomás de Paula, cujo site Plano Beta não se encontra mais no ar.

Por algum acaso, os animais são recorrentes sujeitos das orações compostas por todas as letras. Dois exemplos do espanhol: “El pingüino Wenceslao hizo kilómetros bajo exhaustiva lluvia y frío, añoraba a su querido cachorro” e “El veloz murciélago hindú comía feliz cardillo y kiwi. La cigüeña tocaba el saxofón detrás del palenque de paja” (tradução consciente nos programas da Microsoft na língua castelhana).

Naturalmente surgiriam tentativas de explorar ainda mais as possibilidades de um pangrama, surgindo assim alguns auto-explicativos, como este em inglês, composto por Lee Sallows: “This Pangram contains four a’s, one b, two c’s, one d, thirty e’s, six f’s, five g’s, seven h’s, eleven i’s, one j, one k, two l’s, two m’s, eighteen n’s, fifteen o’s, two p’s, one q, five r’s, twenty-seven s’s, eighteen t’s, two u’s, seven v’s, eight w’s, two x’s, three y’s, & one z”.

E para os que não tiveram o prazer de encontrar por conta própria a ligeira raposa e o cão preguiçoso, basta digitar =rand(200,99) em alguma versão do Microsoft Word até a 2003 ou =rand.old(200,99) nas versões mais recentes e apertar a tecla enter. 200 e 99 referem-se respectivamente ao número de parágrafos e ao número de frases por parágrafo.

Mais um bom motivo para deixar de vez o famigerado “nononono”.

¹ Cecília Meireles

Anúncios

Uma resposta

  1. Bom, é verdade, esse pangrama é de minha autoria… fico contente de ter deixado, nos tempos do meu site, uma contribuição digna de ser citada.

    Abraço!
    Tomás de Paula.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: