A temperatura exata da queima de livros

Em 1933, os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Einstein e Freud. Diante de tal cena, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário a seu amigo Ernest Jones: “Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia eles se contentam em queimar meus livros”.

A ironia de Freud parece ter influenciado o escritor americano Ray Bradbury a imaginar uma época em que livros passam a ser incinerados por representar perigo à sociedade. Qual seria o próximo passo dessa barbárie? Queimar os próprios homens para apagar de vez a memória dos livros? E é essa a idéia que percorre todo o romance Fahrenheit 451 (Editora Globo, 210 pág., R$ 32), publicado em 1953.

Esse romance visionário – com repercussão ampliada após o filme homônimo de François Truffaut – trata justamente de uma sociedade em que os livros foram proscritos, em que o simples fato de manter obras literárias ou filosóficas em casa constituía-se crime. Guy Montag, um bombeiro que, após várias incinerações de livros, começa a se questionar sobre o fascínio que essas páginas impressas exercem sobre algumas pessoas, que desafiam a ordem pelo simples prazer de ler. O fato decisivo foi o testemunho da auto-imolação de uma senhora (Sra. Blake) que prefere morrer no incêndio a perder sua biblioteca pessoal.

O enredo é ambientado numa cidade dos EUA, mas não há nada de futurista em sua paisagem. Ela é um pouco mais sombria e opressiva do que a maioria das metrópoles contemporâneas, com grande progresso industrial. A indústria do entretenimento se impunha na realidade cotidiana pela onipresença de monitores de televisão, que podem ter sido inspirados no Grande Irmão, de George Orwell. Nessa sociedade, a diversão era obrigatória, por isso, segundo o personagem Beatty, os livros eram proibidos por não deixarem os homens felizes, porque inquietam, transtornam, subvertem.

Ao lado de clássicos da ficção científica como Admirável mundo novo, de Aldous Huxley e A revolução dos bichos, de George Orwell, o romance de Bradbury trata de um universo opressivo distópico, ainda que bem realista para os dias atuais.
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4 Respostas

  1. Quem dera as pessoas tivessem livros que “pudessem ser queimados”. Quem dera se preocupassem com a falta destes.

    Vejo com um certo pessimismo, não irreversível, a situação hoje. Livros são queimados no sentido mais conotativo do termo.

    O filme? Genial. Quanto ao livro, estou esperando…

  2. Hoje quando olhei para a capa do dvd do filme F. 451 me deparei com a seguinte frase publicitária: algo como “o que você faria se não pudesse mais ler?”
    Será que isso faria sentido num páis como o Brasil?
    Enfim, o publicitário que criou essa frase não foi muito feliz…

  3. Para a maioria ler tem sentido de informação rápida, saber decifrar uma placa ou um cardápio de restaurante… No sentido geral ler não tem o mesmo peso que para os alunos da produção editorial.
    O nome da rosa já discutiu a subversão pela leitura, queimar livros por impedirem a felicidade é bizarro…

    PQ nunca fizeram um filme com destruição de telas? (pelo menos nunca vi) DEIXA O LIVRO QUIETO!!

  4. Taynée, esta é exatamente a minha reflexão.

    De qualquer forma, me contento de Truffaut ser francês e o país ter esta cultura dos livros mais forte que a nossa. Acharia um tanto bizarra a adaptação à O Mundo de Sofia no cinema.

    Não seria ruim, no entanto, um filme sobre a destruição das telas. Não Fahrenheit 451! Até porque a temperatura para queimar LCDs e afins é diferente de 233 °C.

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