Acordo Ortográfico – V Editor em Ação

A terceira mesa do V Editor em Ação, cuja temática foi o impacto do novo acordo ortográfico, contou com a presença de Domício Proença, professor e representante da Academia Brasileira de Letras, Rachel Valença, revisora da Casa de Rui Barbosa, e Sérgio França, coordenador editorial da Editora Record. O encontro foi mediado pela professora Maura Sardinha.

Domício Proença iniciou a discussão traçando um histórico dos acordos ortográficos entre os países de lusófonos e explicando o principal motivo pelo qual estes acordos não entraram em vigor como se pretende atualmente – a legitimação. Segundo o professor, para que aconteça uma mudança destas no idioma oficial destes países, são necessários a aprovação do Congresso Nacional e um decreto assinado pelo presidente da república.

O palestrante, em seguida, falou da situação da língua portuguesa diante das “línguas nacionais” em alguns países: o número de falantes varia entre 60% e 70% em Angola, por exemplo, e não chega a 10% no Timor-Leste, onde há um movimento para tornar o inglês a língua oficial. Domício relembrou também que em 1996 atingiu-se o número necessário de países signatários – três (Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) – e que houve uma pequena confusão em 1997, quando o acordo deveria ter entrado em vigor não fosse a espera pela adesão de Portugal.

Sobre o acordo ortográfico em si, o professor afirmou que este não muda a língua, apenas a roupagem de algumas palavras; não unifica a grafia, apenas simplifica; privilegia o aspecto fonético, mas não despreza o etimológico; atinge apenas 0,5% das palavras usadas pelo brasileiro e 1,6% do vocabulário português; e respeita as diferenças entre os países (Antônio e António, por exemplo, continuarão a existir no Brasil e nos demais países, respectivamente). Domício ressaltou ainda a grande capacidade de adaptação do brasileiro e o gosto pela novidade, lembrando que nas mudanças ortográficas anteriores (1943 e 1971) não houve confusão.
Por fim, o professor disse acreditar que as mudanças foram um tanto tímidas e apontou alguns termos vagos no documento que determina o novo acordo, como “etc”, “geralmente” e “pronúncia culta”; tratou das vantagens (tentativa de ser língua oficial da ONU, aproximação lingüística dos povos, ampliação do mercado consumidor de didáticos e intercâmbio de livros) e desvantagem (investimento econômico para mudar os livros) do novo acordo e lembrou que durante os próximos três anos valem as duas grafias.

Rachel Valença deu continuidade ao encontro explicando uma dúvida recorrente ao afirmar que o novo acordo não prevê mudanças na fala, apenas na ortografia. Aproveitando o ensejo, disse que para o trabalho de um revisor a ortografia é o que causa menos polêmica e problema porque tem uma história, ao contrário da pontuação, por exemplo, que muda sem que haja algum registro.

Retomando, em seguida, os problemas apontados por Domício Proença, a professora apresentou outras questões que não foram resolvidas com o acordo ortográfico: o uso do hífens continua sem regras claras e não normatizou algumas questões sobre o uso da maiúscula em logradouros e no título das obras (aceita-se tanto “Vidas secas” quanto “Vidas Secas”). Rachel, no entanto afirmou que é bom que o acordo não seja tão restritivo, pois o falante precisa sentir-se dono da língua também.

Dados estes aspectos vagos do acordo, a mesa foi unânime sobre a necessidade de uma reunião entre os profissionais dos livros e das letras para estabelecer uma convenção brasileira para estes pontos dúbios, facilitando a normatização no país. Enquanto não se chega a um consenso, os revisores terão um trabalho árduo pela frente, mas as adaptações das obras até 2012 vão aquecer o mercado da revisão, de acordo com a professora Rachel Valença.

Sérgio França, finalizando as palestras, tratou da questão econômica da adaptação. Segundo o coordenador editorial da Record, as mudanças na ortografia terão mais impacto na editoras de livros didáticos, mas as demais interessadas em vendas governamentais já precisam se adaptar às novas regras. O edital do PNBE, por exemplo, já exige que as obras sejam enviadas com o novo acordo.

O palestrante falou da decisão da Record de trabalhar todos os livros com a nova convenção a partir de janeiro de 2009 e do maior custo nas reedições, que passam a exigir mais de um revisor e mudanças no fotolito. Sérgio, entretanto, não acredita que estes custos serão repassados para o consumidor final e aponta o aspecto econômico positivo da simplificação na grafia: um novo mercado para exportação de livros, principalmente didáticos.

O encontro teve fim com a rodada de perguntas que, dentre outros temas, trouxe a questão da exportação de livros para países luso-africanos, até então dominada por Portugal. A resposta de Domício Proença foi de que depende de o acordo vingar nestes países e da vontade da população. O professor afirmou ainda que a maioria das perguntas que recebe é sobre gramática e não sobre as mudanças da ortografia e ressaltou que vale lembrar que tudo o que não está previsto no texto do novo acordo ortográfico continua da mesma forma.

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3 Respostas

  1. O Domício apontou o guia do Evanildo Bechara como o melhor de todos até agora, segundo ele, excelente, enquanto os outros têm questões divergentes. Achei interessante a proposta de que haja uma “norma” baseada em discussões entre as editoras brasileiras. Isso certamente iria facilitar o nosso trabalho de revisão. Quando se está começando, não interfere muito. Mas depois de anos trabalhando num mesmo lugar, quando se tem que mudar de editora, é mais complicado se adequar a novas normas internas, já que cada uma tem seu próprio procedimento.

  2. Oi, pessoal,

    Li agora a cobertura do Editor em Ação e gostei muito. Os textos esclarecem bem os temas abordados, inclusive para quem não estava no dia.

    Adorei!

  3. agradeça ao nosso repórter profissional camila!!

    Adorei esse dia do acordo, serviu para não nos desesperarmos, mas que vai ser estranho no início vai…

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