Produção Editorial na Argentina: editoras independentes

Na primeira palestra sobre “Produção editorial na América do Sul”, Damián Tabarovsky, da Interzona Editorial, inicialmente contextualizou o momento político-econômico da Argentina, falando, sobretudo, das privatizações e da época do “um pra um” (quando o peso equivalia ao dólar). Tal situação, segundo o palestrante, gerou uma invasão de importações e dificultou que as empresas argentinas exportassem seus produtos. Foi este também o momento da chegada das grandes multinacionais ao país, e no meio editorial não foi diferente: as grandes editoras espanholas, na década de 1990, iniciaram um processo de concentração através da compra das pequenas editoras latino-americanas.

Antes de dar prosseguimento à palestra, Tabarovsky deixou claro que não faz do debate uma lógica binária, na qual as grandes editoras seriam más e as pequenas, boas. Ele mesmo, como autor, publica pela Random House. No entanto, há uma série de críticas às conseqüências da invasão editorial pelos espanhóis: a questão da língua e o conteúdo dos livros. As traduções apresentavam um espanhol no qual o povo não se reconhecia, bem diferentes da diversidade lingüística própria dos argentinos. Houve também o fenômeno da “literatura de esquerda”, assim definida por Tabarovsky, que consistia em escritores com um conteúdo esquerdista e crítico, mas que seguiam os cânones do mercado para vender. Alguns destes escritores eram apenas autores com toque de cultura querendo emplacar bestsellers, como definiu o palestrante.

Da mesma forma que este quadro político-econômico possibilitou a chegada das grandes editoras, a crise do modelo “um pra um”, que estoura em 2001, representa um novo momento para o mercado editorial da Argentina. As grandes editoras, que até aquele momento vendiam seus livros como se estivessem nos Estados Unidos, tiveram que encarar a realidade do câmbio de três/quatro pesos para um dólar, o que gerou uma fragilidade destas grandes editoras. Por outro lado, caiu o custo de produção do livro e os nacionais passaram a ser muito mais competitivos no mercado. Esta nova realidade possibilitou o surgimento das editoras independentes, que ganharam força com o despertar de um sentimento cultural muito forte em meio à crise e trouxeram um dinamismo nunca antes visto no país.

Contextualizado o momento, Damián Tabarovsky falou sobre a experiência da Interzona e do papel das editoras independentes. A Interzona, por exemplo, trabalha com um sistema de distribuição próprio, apesar de ser mais complicado que legar o trabalho a uma distribuidora, não apenas por uma questão financeira, mas para estabelecer uma relação pessoal com as livrarias independentes. Além disto, a Interzona apresenta características consideradas importantes para as pequenas editoras: a preocupação em formar um catálogo e o que Tabarovsky chamou de “lógica de guerrilha” – a procura por nichos, por novos autores, por livros de grandes autores não publicados.

A relevância deste trabalho das editoras como a Interzona é maior ainda quando o editor fala sobre a inexistência de uma política cultural do governo argentino. Ao passo que algumas embaixadas subsidiam escritores contemporâneos, não existem sequer subsídios para a tradução de autores argentinos. Dadas estas dificuldades, somadas à pouca verba disponível para a publicidade, Tabarovsky falou um pouco sobre as estratégias de divulgação muito focadas no boca a boca, na criação de redes e nas novas tecnologias, como os blogs, que recebem um tratamento (alguns selecionados) para que se sintam “a própria Folha de São Paulo”. Vale ressaltar que muitos destes editores aprenderam no próprio trabalho, pois a formação em Editoração/Produção Editorial é algo novo na Argentina.

Por fim, o palestrante falou sobre o momento atual das independentes. A Interzona, por exemplo, está perdendo autores e pode ser comprada a qualquer dia por uma grande editora. Tabarovsky citou um artigo, “um tanto sombrio”, de um professor da Faculdade de Buenos Aires, segundo o qual está acabando o ciclo das editoras independentes (2002-2007) e o fim dever ser marcado pela Feira de Frankfurt de 2010, cujo país tema será a Argentina. A própria situação atual da Interzona não permite que o editor discorde deste quadro.

Para Tabarovsky, o importante, no entanto, é que estas editoras cumpriram o papel de mostrar o estado latente da língua no momento, o que é censurado pela censura do mercado. “O que é o leitor? O que é a literatura? E o livro?” Estas editoras fizeram estes questionamentos, e isto é o que fica.

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Uma resposta

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