Cadernos de Tipografia, nº 1 ao 12

Enquanto realizava um search no google à procura da conveniência (ou não!) do  termo “revisão tipográfica” em uma ficha de créditos, encontrei a bacaníssima revista lusitana Cadernos de Tipografia, publicação de caráter acadêmico redigida e composta quase que inteiramente pelo typeface designer, pedagogo, e doutor em Física Nuclear  Paulo Heitlinger. O periódico possui várias reflexões sobre o estudo da tipografia em Portugal, indo desde ensaios históricos, a verdadeiros manifestos de cunho personalista, como o inflamado libelo anti-Helvetica escrito pelo próprio Heitlinger no nº 1.

Embora a tradição tipográfica portuguesa seja bem mais extensa que a brasileira, iniciada, ao que parece, apenas com a chegada da família real portuguesa ao Brasil (1808), é interessante observar a escassez de publicações sobre o tema em Portugal. Heitlinger, autor ele próprio de um livro técnico intitulado Tipografia, lamenta, por exemplo, a inexistência da excelente tradução de Elementos do Estilo Tipográfico (Cosac Naify), de Robert Brignhurst, nas prateleiras lusitanas. Aliás, a edição brasileira de Elementos faz parte de um esforço recente da própria Cosac Naify em levar ao público livros sobre tipografia e design, tendo essa edição incluído nomes como Alexandre Wollner, André Stolarski, Chico Homem de Melo, Rafael Cardoso e Raul Loureiro em seu conselho editorial. O catálogo ainda é pequeno, mas possui títulos representativos como Pensar com Tipos e Grid: Construção e Desconstrução, de Ellen Lupton e Timothy Samara, livros que quem fez Layout Editorial com a prof. Ana Sofia já deve estar familiarizado. A responsável pela coordenação editorial desses títulos é a designer paulistana Elaine Ramos, que assume, desde 2005, o posto de diretora de arte da casa editorial. E de pensar que até bem pouco tempo atrás nem mesmo essa bibliografia básica da Cosac estava disponível em português…

Iniciativas como a de Paulo Heitlinger e sua Cadernos de Tipografia são realmente louváveis. Para nós, brasileiros, é realmente encantador emergir no universo do estudo da tipografia de um país tão próximo e tão estrangeiro quanto Portugal, ainda mais quando contamos com tão pouco material sobre a história da tipografia lusitana em geral. Vale lembrar que o Brasil herda, em um primeiro momento, toda essa tradição portuguesa de editoração,  inovando apenas no comecinho do séc. XX com o amplo uso de capas ilustradas, seguindo a escola anglo-americana, em revistas, períodicos e, enfim!, livros. Pra saber mais, vale a pena ler o ensaio de Rafael Cardoso em O Design brasileiro antes do Design ( org. Rafael Cardoso, Cosac Naify, 2005) e o artigo de Chico Homem de Melo sobre capas de livro em O Design Gráfico brasileiro dos anos 60 (org. Chico Homem de Melo, Cosac Naify, 2005).

Infelizmente, ao contrário da Cadernos de Tipografia, esses livros não são de graça. Mas foram, sem dúvida, duas das minhas melhores aquisições em 2007, além do delicioso A Forma do Livro, reunião de ensaios escritos nas décadas de 1950-60 por Jan Tschichold, e Aldo Manuzio: Impressor, Tipógrafo e Livreiro, biografia comentada do catalão Enric Satué sobre o célebre editor multi-funcional veneziano, ambos publicados na ainda pequenina série Artes do Livro pela  Ateliê Editorial. Vale a pena se ferrar um pouquinho e comprar esses livros, principalmente se você gostar muito de tipografia, e queira saber como as coisas funcionam para além do processo intuitivo. Se é que tem alguma coisa “intuitiva” em um livro realmente bonito.

Creio que Paulo Heitlinger seria um ótimo nome para a mesa internacional do próximo Editor em Ação. Afinal, parece que Tipografia é uma publicação pioneira em Portugal. É ver pra crer, porém. No mais, resta fazer um pedido à Vivian Andreozzi, que está em Lisboa, para investir uns 30 euros na obra deste senhor. Com certeza, será uma aquisição importantíssima para nossa biblioteca nerd em design editorial. 🙂

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12 Respostas

  1. pô, Amanda, tirando assunto da minha pauta! haha
    eu já conhecia o trabalho dele antes de vir pra cá, e uma semana antes de viajar, encontrei o livro a venda na Saraiva. achei incrível.

    usei esse livro para fazer um trabalho sobre o Nicolas Jenson, apesar do leve desprezo do comentário do meu professor sobre o livro do Heitlinger: “O livro é bom, mas tem uma hierarquia de informações um tanto caótica.”

    Ainda há uma certa resistência quanto a livros com tradução brasileira aqui (principalmente depois do acordo ortográfico, que fê-los sentirem altamente menosprezados.) Apesar disso, o “Elementos…” versão brasileira está na bibliografia obrigatória de várias matérias. Por outro lado, eles parecem ignorar que existe a versão brasileira do Pensar com Tipos. Ainda não entendi o porquê.

  2. Sentem-se tão colonizados com um acordo que muda 1,6% do seu vocabulário médio, mas assistem felizes e contentes as nossas novelas. Vá entender…

  3. cara, o Heitlinger passou a vida inteira trabalhando na Alemanha como engenheiro de fissão, depois passou a estudar tipografia, e agora se interessa por arqueologia. não tem como um cara hiperativo desses não anarquizar o sumário de um livro…

    vivian, tem aí em portgual uma edição fac-símile dos Lusíadas, referente à impressão do Didot? você acha também o manuel do Bodoni, edição original, “fácil” à venda por aí? não tá sobrando dinheiro pra comprar em euros, haha.

  4. Não conhecia, mas já gostei do Heitlinger só pelo “inflamado libelo anti-Helvetica” !
    No próximo editor em ação, teremos um ferrenho debate entre partidários da altiva Helvetica e os assumidamente anti-Helvetica…

  5. Esses designers não perdem a mania de fazer doutorado em Física Nuclear.

  6. É verdade, tem designer pra tudo…

  7. Aliás, hoje é o Dia do Designer. Parabéns pra quem vive tornando os livros mais agradáveis e belos!

  8. Fico feliz que o tema tipográfico tenha contagiado vocês. Assim como a escrita não é exclusiva a nenhum grupo de “letrados ilustres” mas difundida e bem usada pelas mais diversas especialidades, a tipografia, como parte da escrita, também é um instrumento poderoso de comunicação e que deve ser estudado pelas mais diversas áreas.

    Já conhecia o trabalho desse português.Mas também encontrei seu site quando pesquisava na internet, alguns anos atrás. É bom que no Brasil, com o crescente interesse pela tipografia o pessoal está começando a descobri-lo agora. Quem sabe o intercâmbio da Vivian facilitado pela unificação ortográfica lança novas pontes tipográficas entre nós e os portugueses?
    Quando fazia faculdade (1992-97 não muito tempo atrás 🙂 não tínhamos NENHUM livro sequer “bomzinho” de tipografia publicado em português. Um diretor de uma editora, certa vez (início de 2000!) me respondeu que “o mercado era muito restrito” para livros de design gráfico. Sempre o “terrível” Mercado! Estudávamos com livros em inglês, francês, alemão, espanhol… Mas que bom que existem editores que o desafiam o Mercado! E agora é até “moderninho” publicar livros de design… hehehe. Ótimo! Viva a Cosac, Rosari, Ateliê e até a 2AB (com publicações muitas vezes de qualidade duvidosa). Nós consumimos, nem que seja para fazer criticas e pedir mais e melhor! Que venham novas inicitivas através da nossa Revolução Silenciosa.

    E para os fãs dos tipógrafos lembro de um livro discreto e infelizmente tipográficamente mal projetado (não basta usar bons tipos) mas que ainda assim vale saborear: “História de Alfabetos, a autobiografia e a tipografia de Herman Zapf”, da Rosari, 2005. Grande calígrafo e tipógrafo e um cara ligado na vanguarda tecnológica e na arte tradicional, é designer da Palatino, Aldus, Melior, Optima e as, atualmente muito em moda, Zapfino, e Zapf Dingbats, entre muitas outras.
    E Viva, os físicos Nucleares!

  9. Faltou um N no Hermann ! 😉

  10. Faço minhas as palavras de Ana Sofia. Só me mantenho triste ao perceber que as editoras brasileiras ao lançar obras nacionais (sim, há brasileiros escrevendo sobre tipografia) não tenham o devido trabalho com o grid e a tipografia do próprio livro em questão. É quase um paradoxo no qual a mídia não reproduz o conteúdo do próprio livro.
    A parte deste contra-senso, é bom ver que os brasileiros estão ocupando o espaço da reflexão teórica sobre o design. Aguardo ansioso pelo dia em que teremos uma revista nacional sobre tipografia. O tema merece. Por fim, só para não deixar passar em branco, acrescentaria a lista das editoras que têm contribuido para o tema a pequena Viana e Mosley, com o trabalho de Isabella Perrota. Muito embora considere que ela (a editora) continue tendo os mesmos problemas que seus pares nacionais.

  11. obrigada pela dica, ana sofia! acho que já andei com esse livro do zapf na mão, mas sou preconceituosa quando vejo um livro sobre tipografia feinho. vou considerar comprá-lo, agora. 🙂

    sobre a viana & mosley, acho que falta um certo estofo teórico no trabalho da Perrota. o livro sobre o Burton cai em uma narrativa sentimental, e o “Tipos e Grafias” me decepcionou bastante ao não apresentar a discussão teórica que eu imaginava. na minha opinião, esses livros não servem como obra de referência… o que é uma pena.

    livro feio sobre tipografia não é privilégio de países periféricos. o chato é que são poucos os que forncecem alguma informação relevante para além da apresentação, normalmente mal-feita. mas poderia ser pior: poderiam não existir esses livros.

    na Cadernos de Tipografia nr 1, o Heitilinger faz um apanhado dos títulos sobre tipografia e edição de lvros portugueses. a lista é tristemente curta, e quase toda descartável. eles não tem um Emanuel Araújo, por exemplo. já imaginou produção editorial sem A Construção do Livro?

  12. Orgulharemos quando existir uma tipografia brasileira ganhando o mundo… Estamos perto do nível de formarmos tipógrafos de qualidade artística e original.

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