Heloisa Buarque lança antologia digital ENTER

A crítica literária Heloisa Buarque de Holanda acaba de completar 70 anos e diz que uma compensação da idade é a prerrogativa de não perder mais tempo com o que a entedia. Sempre associada à poesia marginal dos anos 1970, hoje mais dedicada às escritas da periferia e à relação da palavra com a web, ela se diz “de saco cheio” de discutir o que é ou não é literatura. Por isso define como uma amostra das “práticas literárias” contemporâneas a antologia digital ENTER, que lança oficialmente hoje no endereço www.enterantologiadigital.com.br O espaço reúne textos, áudios, fotos e vídeos de 37 autores como Nega Gizza, Marcelino Freire, João Paulo Cuenca, Andre Dahmer, Cecilia Giannetti, Lirinha e Bruna Beber.

No post abaixo, um depoimento de Heloisa sobre literatura e Internet, que fará parte de sua biografia, a ser lançada pela Língua Geral.

Depoimento de Heloisa Buarque de Hollanda ao poeta e jornalista Ramon Mello, parte de uma série de entrevistas para a biografia da crítica, que acaba de completar 70 anos. Idealizado pelo editor Eduardo Coelho, o livro será lançado pela Língua Geral. Leia no post acima trecho da reportagem de Miguel Conde sobre Heloisa e o lançamento da antologia digital ENTER.

Como me interessei pela internet? Através de uma amiga chamada Yone Chastinet, que era bibliotecária, mas migrou para a Ciência da Computação. Ela é muito porra louca e muito brilhante. Não há obstáculo para Yone, por isso é demitida de todos os lugares.

Essa mulher inventou o programa Prossiga para o CNPq, com a intenção de facilitar a consulta numa biblioteca virtual por meio de um filtro e de um “localizador”. Numa era pré-Google, quando não existia browser. Então Yone fez o piloto comigo, na área de Estudos Culturais do PACC [Programa Avançado de Cultura Contemporânea], que ainda era um espaço sem prestígio, sem fronteiras. Quando surgiram ferramentas de busca o projeto ficou obsoleto, mas foram essas bibliotecas virtuais que me jogaram na área de mídias digitais. E logo em seguida encontrei a Literatura Digital.

Lembro que a UNESCO me encomendou um trabalho sobre o papel das minorias na web. Comecei pesquisando as mulheres, que é meu objeto de estudos há alguns anos, mas essa busca sempre acabava em poesia, poesia, poesia, poesia… Eu escrevia “poesia brasileira” no site de busca e a cada dia era impossível segurar aquela estatística. A novidade da linguagem, palavra que vai para qualquer lugar, atraiu o meu interesse para o universo digital. É a pergunta que repito sempre: o que é literatura?

Há um debate enorme na rede: são novas formas de escrever. Nunca se escreveu e leu tanto como na internet. Política de incentivo à leitura? O negócio é sacar que ler é uma viagem e a qualidade da leitura chega logo depois. No Japão há uma expressão incrível: bookaholic – a garotada está viciada em livro de internet, compra e lê sem parar. Estamos apenas no começo, os blogs só tem dez anos no Brasil. Existe literatura de internet? Não! É uma convivência que gera uma diferença de comportamento. Antes o poeta colocava o poema na gaveta e agora o texto vai ao público, sendo testado a todo instante. Esse imediatismo da produção modifica o saber, sem dúvida. Quem está conectado à web tem um processo de atenção diferente, dizem que leva à superficialidade. Acredito que passamos da metáfora para a metonímia. Há uma compreensão mais horizontal, uma articulação que aparece diretamente nos textos. Alguém mais jovem deveria estudar esse assunto. O que é o valor literário? Como foi construída essa noção de valor? No ambiente WWW essa questão é levantada o tempo inteiro. O que tem valor na internet? Se eu fosse dessa geração, não ia querer publicar livros, faria um softbook – o texto pode ser alterado a qualquer momento. Quando entrei na internet eu já tinha uma enorme formação de papel, mas não me assustei, acompanhei o crescimento tecnológico.

Em seguida, passei a me interessar pela periferia. Quando conheci o Júnior do Afro Reagge, era na mesma época do massacre de Vigário Geral – o que fez com que vários intelectuais se reunissem em torno do Júnior, inclusive o Zuenir [Ventura] escreveu Cidade Partida. O Wally [Salomão], meus amigos todos, estavam se aproximando da periferia. Sempre existiu cultura de periferia, mas não havia a oportunidade de ter voz. Estamos bem representados com o Nós do Morro, Cufa, Cia. Étnica, Enraizados… É uma força impressionante! Há grandes diferenças entre a periferia do Rio de Janeiro e da São Paulo. Por exemplo: em São Paulo a propriedade é marcada, cada um toma conta do seu CEP. No DVD 100% Favela, o Ferréz diz: “Quem vai contar minha miséria sou eu, intelectual nenhum vai contar minha história.” No Rio é diferente, o MV Bill está no Fantástico. Na literatura produzida na periferia ainda há o engajamento, mas muito diferente do engajamento de “mudar o mundo”. Hoje há o auto-investimento, é seu CEP que você quer mudar e não o mundo, nem o Brasil. O raio de ação é muito pequeno, então é mais eficaz. Na geração anterior as pessoas eram reativas, agora as pessoas agem e não esperam a revolução. Mais do que a internet, a periferia é grande novidade do século XXI.

http://www.oinstituto.org.br/enter/

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2 Respostas

  1. Olá Vânia que saudades! Estou tentando um contato com vc a tempos mas não consigo.
    Bjs!!

    Bandeira Brasil

  2. Dá um retorno aí.
    Beijaço!!!!
    Bandeira Brasil

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