Produção editorial na Colômbia: independentes e monopólio

O colombiano Gustavo Mauricio García, da Icono Editorial, foi o segundo palestrante da mesa Produção Editorial na América do Sul. Dono de editora desde 2004, García trouxe relatos sobre a sua própria experiência dando um panorama geral do mercado editorial na Colômbia, país no qual os editores costumavam ter formação em Literatura ou Filosofia e, atualmente, a formação principal está ligada à Comunicação Social.

Em uma rápida análise sobre as editoras em seu país, o palestrante declarou que é um dos poucos donos colombiano, a maioria dos donos é de origem espanhola, o que apenas fortalece a evasão de divisas e o capital estrangeiro.

Antes de fundar a Icono Editorial, o palestrante trabalhou em um selo de não-ficção da Santillana, que costumava ter em seu catálogo muitos temas polêmicos, o que garantia um bom mercado. Em um segundo momento, no entanto, por outras questões, parou-se de fazer críticas duras ao governo. Para não se submeter a este tipo de censura, García criou sua própria editora.

Superadas as dificuldades de abrir um negócio na Colômbia, o editor surpreendeu-se ao constatar que os autores continuavam preferindo as grandes editoras. Conseguiu, no entanto, após um tempo lançar o primeiro sucesso da Icono: um livro contendo frases politicamente incorretas. Ressalta ainda que sucesso no país é a venda de 2000 exemplares. Ainda destas primeiras experiências, o editor contou um fato curioso sobre a pouca venda de livros no Festival de Poesia de Medellín, o maior do mundo, constatando que “não há mercado para a compra de poesia, mas há mercado para ouvir poesia”.
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Produção Editorial na Argentina: editoras independentes

Na primeira palestra sobre “Produção editorial na América do Sul”, Damián Tabarovsky, da Interzona Editorial, inicialmente contextualizou o momento político-econômico da Argentina, falando, sobretudo, das privatizações e da época do “um pra um” (quando o peso equivalia ao dólar). Tal situação, segundo o palestrante, gerou uma invasão de importações e dificultou que as empresas argentinas exportassem seus produtos. Foi este também o momento da chegada das grandes multinacionais ao país, e no meio editorial não foi diferente: as grandes editoras espanholas, na década de 1990, iniciaram um processo de concentração através da compra das pequenas editoras latino-americanas.

Antes de dar prosseguimento à palestra, Tabarovsky deixou claro que não faz do debate uma lógica binária, na qual as grandes editoras seriam más e as pequenas, boas. Ele mesmo, como autor, publica pela Random House. No entanto, há uma série de críticas às conseqüências da invasão editorial pelos espanhóis: a questão da língua e o conteúdo dos livros. As traduções apresentavam um espanhol no qual o povo não se reconhecia, bem diferentes da diversidade lingüística própria dos argentinos. Houve também o fenômeno da “literatura de esquerda”, assim definida por Tabarovsky, que consistia em escritores com um conteúdo esquerdista e crítico, mas que seguiam os cânones do mercado para vender. Alguns destes escritores eram apenas autores com toque de cultura querendo emplacar bestsellers, como definiu o palestrante.

Da mesma forma que este quadro político-econômico possibilitou a chegada das grandes editoras, a crise do modelo “um pra um”, que estoura em 2001, representa um novo momento para o mercado editorial da Argentina. As grandes editoras, que até aquele momento vendiam seus livros como se estivessem nos Estados Unidos, tiveram que encarar a realidade do câmbio de três/quatro pesos para um dólar, o que gerou uma fragilidade destas grandes editoras. Por outro lado, caiu o custo de produção do livro e os nacionais passaram a ser muito mais competitivos no mercado. Esta nova realidade possibilitou o surgimento das editoras independentes, que ganharam força com o despertar de um sentimento cultural muito forte em meio à crise e trouxeram um dinamismo nunca antes visto no país.
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Produção Editorial na América do Sul – V Editor em Ação

No quarto dia do V Editor em Ação, a produção editorial na América do Sul foi apresentada sob a ótica de três editores sul-americanos: Damián Tabarovsky, da Interzona Editorial (Argentina); Gustavo Mauricio García, da Icono Editorial (Colômbia) e Paulo Werneck, da Cosac Naify (Brasil). A mesa foi mediada pelo professor Paulo Roberto Pires.

As três palestras tiveram foco nas editoras independentes, principalmente na definição de Gustavo Mauricio García de que “a independência é muito mais que financeira, é um independência de conteúdo”. Cada palestrante apresentou temas tão ricos e variados que esta quarta mesa será dividida em três postagens.

No fim, os editores ampliaram o debate direcionado pelas perguntas dos presentes e trataram de temas como a importância da Internet para estas editoras de pequeno porte, a questão dos livros infantis, os números que marcam o sucesso do livro destes países, a pirataria e as questões de copyright e copyleft. Sobre este último assunto, Paulo Werneck mostrou preocupação com as pessoas que vivem de trabalho intelectual, ao discutir à crítica ao copyright, e levantou uma questão importante: “por que ninguém nunca discute a criação de bibliotecas públicas?”.

Confira aqui as postagens: Damián Tabarovsky, Gustavo Mauricio García e Paulo Werneck.