Prêmio São Paulo de Literatura

O Prêmio São Paulo de Literatura, criado este ano, despertou muita curiosidade por conta do valor destinado aos seus vencedores: 200 mil reais. Um prêmio nada deprimente…

Com duas categorias ― Melhor Livro do Ano de 2007 e Melhor Livro do Ano de 2007 (Autor Estreante) ― esta primeira edição do Prêmio SP de Literatura laureou O filho eterno, de Cristovão Tezza e A chave de casa, de Tatiana Salem Levy. Tezza, aliás, levou tudo, este ano: além do Prêmio SP, foi o vencedor do Jabuti e do Portugal Telecom.

Lista dos finalistas aqui.

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A temperatura exata da queima de livros

Em 1933, os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Einstein e Freud. Diante de tal cena, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário a seu amigo Ernest Jones: “Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia eles se contentam em queimar meus livros”.

A ironia de Freud parece ter influenciado o escritor americano Ray Bradbury a imaginar uma época em que livros passam a ser incinerados por representar perigo à sociedade. Qual seria o próximo passo dessa barbárie? Queimar os próprios homens para apagar de vez a memória dos livros? E é essa a idéia que percorre todo o romance Fahrenheit 451 (Editora Globo, 210 pág., R$ 32), publicado em 1953.

Esse romance visionário – com repercussão ampliada após o filme homônimo de François Truffaut – trata justamente de uma sociedade em que os livros foram proscritos, em que o simples fato de manter obras literárias ou filosóficas em casa constituía-se crime. Guy Montag, um bombeiro que, após várias incinerações de livros, começa a se questionar sobre o fascínio que essas páginas impressas exercem sobre algumas pessoas, que desafiam a ordem pelo simples prazer de ler. O fato decisivo foi o testemunho da auto-imolação de uma senhora (Sra. Blake) que prefere morrer no incêndio a perder sua biblioteca pessoal.

O enredo é ambientado numa cidade dos EUA, mas não há nada de futurista em sua paisagem. Ela é um pouco mais sombria e opressiva do que a maioria das metrópoles contemporâneas, com grande progresso industrial. A indústria do entretenimento se impunha na realidade cotidiana pela onipresença de monitores de televisão, que podem ter sido inspirados no Grande Irmão, de George Orwell. Nessa sociedade, a diversão era obrigatória, por isso, segundo o personagem Beatty, os livros eram proibidos por não deixarem os homens felizes, porque inquietam, transtornam, subvertem.

Ao lado de clássicos da ficção científica como Admirável mundo novo, de Aldous Huxley e A revolução dos bichos, de George Orwell, o romance de Bradbury trata de um universo opressivo distópico, ainda que bem realista para os dias atuais.