Elementos do estilo tipográfico – versão 3.0

“Se você usar este livro como um guia, sinta-se à vontade para sair da estrada quando quiser. Fique também à vontade para quebrar as regras – quebre-as com beleza, deliberadamente, bem. Esse é um dos fins para os quais elas foram criadas.”

“Na república da tipografia, mesmo o sinal mais humilde e incidental é considerado um cidadão.”

“Tenha consideração até mesmo pelo humilde hífen”

“A Baskerville, a Helvetica, a Palatino e a Times Roman – quatro das fontes mais disponíveis -, por exemplo, não têm nada a oferecer umas às outras a não ser a discórdia pública.”

R.B.

elementoscapa2Eis algumas excentricidades do designer Robert Bringhurst. Com prefácio e tradução de André Stolarski, o livro Elementos do estilo tipográfico – versão 3.0 de Robert Bringhurst, que já foi traduzido para línguas como o russo e o grego, está em sua terceira edição revista (versão 3.0) e faz-se um item mais que necessário na Biblioteca de Produção Editorial.

Escrita, projetada e composta pelo tipógrafo, ensaísta e poeta norte-americano Robert Bringhurst, a obra reúne e discute em profundidade os conhecimentos que a história da tipografia ocidental transformou em tradição ao longo dos últimos 600 anos, respaldado por uma linguagem deliciosamente acessível, que a tornou uma unanimidade entre os designers gráficos do mundo inteiro.

O título é inspirado em conceitos do filósofo Walter Benjamin. “O estilo literário é o poder de mover-se livremente pelo comprimento e pela largura do pensamento lingüístico sem deslizar para a banalidade. Estilo tipográfico, neste sentido amplo da palavra, não significa nenhum estilo em particular, ‘meu estilo’, ‘seu estilo’, ‘neoclássico’ ou ‘barroco’, mas o poder de mover-se livremente por todo o domínio da tipografia e de agir a cada passo de maneira graciosa e vital, sem ser banal”, afirma Bringhurst.

Sem se propor a ser uma guia tipógráfico, o livro tem a pretensão de dar ao leitor as informações necessárias para alcançar essa liberdade instrumental e, sobretudo, intelectual, o que diferencia o livro de Bringhurst dos manuais práticos, dos compêndios históricos e dos volumes introdutórios sobre o assunto.

Elementos sustenta sua afirmação de que não existe problema tipográfico que não seja, também, problema de linguagem, em um cabedal de informações práticas, que fornece desde o início: questões como o espacejamento de letras e palavras ou modos de recuar um parágrafo; tamanhos, estilos, famílias e contrastes das fontes de um texto; e muito mais.

Elementos do estilo tipográfico
Formato: 13,5 x 23 cm
Páginas: 432 páginas; 685 ilustrações
Encadernação: Brochura
Preço: R$ 47,20 no site da Cosac Naify

 

Cadernos de Tipografia, nº 1 ao 12

Enquanto realizava um search no google à procura da conveniência (ou não!) do  termo “revisão tipográfica” em uma ficha de créditos, encontrei a bacaníssima revista lusitana Cadernos de Tipografia, publicação de caráter acadêmico redigida e composta quase que inteiramente pelo typeface designer, pedagogo, e doutor em Física Nuclear  Paulo Heitlinger. O periódico possui várias reflexões sobre o estudo da tipografia em Portugal, indo desde ensaios históricos, a verdadeiros manifestos de cunho personalista, como o inflamado libelo anti-Helvetica escrito pelo próprio Heitlinger no nº 1.

Embora a tradição tipográfica portuguesa seja bem mais extensa que a brasileira, iniciada, ao que parece, apenas com a chegada da família real portuguesa ao Brasil (1808), é interessante observar a escassez de publicações sobre o tema em Portugal. Heitlinger, autor ele próprio de um livro técnico intitulado Tipografia, lamenta, por exemplo, a inexistência da excelente tradução de Elementos do Estilo Tipográfico (Cosac Naify), de Robert Brignhurst, nas prateleiras lusitanas. Aliás, a edição brasileira de Elementos faz parte de um esforço recente da própria Cosac Naify em levar ao público livros sobre tipografia e design, tendo essa edição incluído nomes como Alexandre Wollner, André Stolarski, Chico Homem de Melo, Rafael Cardoso e Raul Loureiro em seu conselho editorial. O catálogo ainda é pequeno, mas possui títulos representativos como Pensar com Tipos e Grid: Construção e Desconstrução, de Ellen Lupton e Timothy Samara, livros que quem fez Layout Editorial com a prof. Ana Sofia já deve estar familiarizado. A responsável pela coordenação editorial desses títulos é a designer paulistana Elaine Ramos, que assume, desde 2005, o posto de diretora de arte da casa editorial. E de pensar que até bem pouco tempo atrás nem mesmo essa bibliografia básica da Cosac estava disponível em português…

Iniciativas como a de Paulo Heitlinger e sua Cadernos de Tipografia são realmente louváveis. Para nós, brasileiros, é realmente encantador emergir no universo do estudo da tipografia de um país tão próximo e tão estrangeiro quanto Portugal, ainda mais quando contamos com tão pouco material sobre a história da tipografia lusitana em geral. Vale lembrar que o Brasil herda, em um primeiro momento, toda essa tradição portuguesa de editoração,  inovando apenas no comecinho do séc. XX com o amplo uso de capas ilustradas, seguindo a escola anglo-americana, em revistas, períodicos e, enfim!, livros. Pra saber mais, vale a pena ler o ensaio de Rafael Cardoso em O Design brasileiro antes do Design ( org. Rafael Cardoso, Cosac Naify, 2005) e o artigo de Chico Homem de Melo sobre capas de livro em O Design Gráfico brasileiro dos anos 60 (org. Chico Homem de Melo, Cosac Naify, 2005).

Infelizmente, ao contrário da Cadernos de Tipografia, esses livros não são de graça. Mas foram, sem dúvida, duas das minhas melhores aquisições em 2007, além do delicioso A Forma do Livro, reunião de ensaios escritos nas décadas de 1950-60 por Jan Tschichold, e Aldo Manuzio: Impressor, Tipógrafo e Livreiro, biografia comentada do catalão Enric Satué sobre o célebre editor multi-funcional veneziano, ambos publicados na ainda pequenina série Artes do Livro pela  Ateliê Editorial. Vale a pena se ferrar um pouquinho e comprar esses livros, principalmente se você gostar muito de tipografia, e queira saber como as coisas funcionam para além do processo intuitivo. Se é que tem alguma coisa “intuitiva” em um livro realmente bonito.

Creio que Paulo Heitlinger seria um ótimo nome para a mesa internacional do próximo Editor em Ação. Afinal, parece que Tipografia é uma publicação pioneira em Portugal. É ver pra crer, porém. No mais, resta fazer um pedido à Vivian Andreozzi, que está em Lisboa, para investir uns 30 euros na obra deste senhor. Com certeza, será uma aquisição importantíssima para nossa biblioteca nerd em design editorial. 🙂